Escrevo bilhetes sem muito nexo
Para a empregada de quem
nunca vejo o rosto
E que por sua vez
Deixa bilhetes em resposta
que também não fazem senso.
Toda noite leio os mesmos versos
e sinto que posso passar assim
a vida inteira
- escrevendo bilhetes
sem nexo ou propósito
e relendo ‘la rosa profunda’
- seria bom –
Entretanto, atravesso a vida
como os bilhetes que escrevo
para a empregada
cuja cara nunca vejo
- sem qualquer propósito
a não ser cuidar de problemas alheios
e sem enxergar que o sentido de tudo
está nos bilhetes sem sentido
e nas respostas sem nexo
que me conectam
à face desconhecida.
(poema que integra o livro 'O Embrião da Luz')